De origem africana, em iorubá, acará significa bola de fogo, enquanto jé corresponde ao verbo comer. Deste modo, acarajé quer dizer: comer bola de fogo. O bolinho é feito da massa de feijão-fradinho, cebola batida e sal. Frito no azeite de dendê, pode ser recheado com caruru, vatapá, camarão seco, molho de pimenta e salada de tomates.
O quitute, segundo Vivaldo da Costa Lima, foi trazido para o Brasil pelos escravizados de etnia nagô, das regiões da Nigéria e do atual Benin. A princípio chamado de acará, o bolinho é, sem dúvidas, o prato de origem africana mais conhecido no Brasil. Manuel Querino, em sua obra dedicada à culinária baiana, incluiu o acarajé na lista dos alimentos puramente africanos e apresentou uma descrição detalhada dos modos de preparo do bolinho naquela época, em que se usava, por exemplo, a popularmente chamada “pedra de ralar”, utensílio que possibilitava moer os feijões-fradinho, assim como os camarões e pimentas.
É de suma importância ressaltar que, para além de sua popularidade no paladar dos baianos, o acarajé é uma comida presente nas práticas rituais das religiões afro-brasileiras, sendo a comida oferecida a Iansã. Um dentre diversos mitos africanos narra que Iansã, após se separar de Ogum e se casar com Xangô, foi enviada pelo atual esposo à terra dos baribas, a fim de trazer para ele de lá, um preparado que lhe daria o poder de cuspir fogo quando ingerido. Iansã, desobedecendo as recomendações de Xangô, experimentou o preparado antes dele e, como esperado, adquiriu a capacidade de lançar chamas de fogo pela boca. Por esse motivo, como observa Vagner Rocha em sua pesquisa sobre o acarajé, nos rituais dos deuses do fogo, Iansã e Xangô disputam para engolir os acarás, chumaços de algodão embebidos de dendê e aceso com fogo, numa cerimônia que lembra a origem dos acarajés. Vale mencionar também que o tamanho e formato dos bolinhos estão diretamente associados a divindades específicas. Dessa maneira, acarajés grandes e alongados são oferecidos a Xangô, enquanto os menores a Iansã. Já para Obá e os Erês são oferecidos os acarajés pequenos, em formatos bem redondos.
Encontrado nos tabuleiros das ganhadeiras desde o período colonial brasileiro, o bolinho já chegava frito nas ruas e era comercializado, puro ou acompanhado apenas por um molho de pimenta. Com o passar dos tempos, algumas mudanças ocorreram na venda do quitute, como por exemplo, o tamanho do bolinho que cresceu, bem como, a inclusão das opções de recheios (caruru, vatapá, camarão e salada) e a fixação dos tabuleiros em pontos espalhados pela cidade, onde passou a ser frito nas vias públicas. Desde 2005 o acarajé é reconhecido como patrimônio nacional imaterial, registrado pelo IPHAN, assim como o ofício das baianas que preparam e vendem os quitutes.
Referências:
LIMA, Vivaldo da Costa. A anatomia do acarajé e outros escritos. Salvador: Corrupio, 2010.
QUERINO, Manuel. A Arte Culinária na Bahia, In: Costumes Africanos no Brasil. Recife: Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massangana, 1988.
SANTOS, Vagner José Rocha. O sincretismo na culinária afro-baiana: o acarajé das filhas de Iansã e das filhas de Jesus. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, Universidade Federal da Bahia, Salvador, p.159. 2016.