Abará ou abalá, alimento originário da África Ocidental, especificamente da Nigéria, onde é chamado de moin-moin, é mais um dentre os diversos pratos trazidos pelos escravizados e preservados até os dias de hoje no Brasil.
O abará é um quitute, preparado com a massa semelhante da que se faz o acarajé, porém cozido no vapor, feito de feijão-fradinho, camarão seco triturado, cebola, azeite de dendê, temperado com sal e embrulhado nas folhas de bananeira.
Como outros pratos de origem africana, o abará ganhou as ruas, através das ganhadeiras, no período colonial. Segundo Câmara Cascudo, antes do contato com os portugueses, os africanos consumiam mais alimentos cozidos que assados ou fritos. Ele observa que em solo africano, o azeite de dendê era utilizado muito mais como tempero dos preparos do que para fritá-los. Deste modo, para Câmara Cascudo, o abará seria um prato genuinamente africano justamente por ser cozido a vapor. O uso do azeite de dendê para fritar os alimentos, seria para ele, influência da aproximação com a culinária portuguesa.
Comida popular entre os baianos, o abará é também comida de candomblé, presente nos rituais religiosos. Assim como o acarajé e o acaçá, o abará é comida consagrada às Iabás, em especial, a Oxum. Um mito conta que, certa vez, Xangô decidiu guerrear contra uma tribo inimiga. Ao retornar vitorioso, alguns dos derrotados prepararam uma emboscada para o rei de Oió. Ao saber disso, Oxum ordenou que fosse preparado inúmeros abarás. Depois, ela se transformou num rio caudaloso que correu em direção aos inimigos de seu amado; quando chegou perto deles, suas águas ficaram tranquilas e os abarás começaram a boiar. Os adversários, cansados e famintos, entraram no rio e se deliciaram com os abarás. Foi nesse momento então, que o rio desapareceu, levando junto todos os inimigos de Xangô. Por esse motivo, Oxum é conhecida como aquela que venceu a guerra sem derramar uma gota de sangue.
Referências:
CASCUDO, Luís Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.
VIANNA, Hildegardes A Cozinha Baiana: seu folclore, suas receitas. Bahia: s/e, 1955.
________. A Bahia já foi assim. Bahia: Editora Itapuã, 1973.